Resenha: Clara dos Anjos (★★★★)


Olá leitores, tudo bem??

Hoje tem resenha de um livro que eu fui "obrigada" a ler, por motivos de: Vestibular. Acabei gostando e resolvi compartilhar com vocês! E vai que alguém precise ler também, já pode ter uma ideia de todo o enredo :)

Antes de tudo, o livro aborda temas como discriminação racial e social, então todos os termos e palavras foram utilizados para descrever o livro e as coisas que ele retrata, em uma sociedade um tanto diferente da nossa atualmente. Não explicito a minha opinião pessoal sobre esses assuntos em momento algum... então, vamos lá!


Título: Clara dos Anjos

Autor: Lima Barreto

Páginas: 108

Classificação: ()


Clara dos anjos conta a história de Clara, uma menina de 17 anos, sonhadora e quase isenta de vida própria. Percebemos uma forte insegurança e dependência, além de a garota não entender o motivo por ela ser tão "presa", sendo que a maioria de seus amigos saem constantemente.


O fulgor do meu ideal me cegou; a vida, quando não me fosse traduzida em poesia, aborrecia-me. 

Seu próprio nome é uma antítese: é uma mulata chamada de Clara. Como o próprio nome já evidência, um dos temas abordados, e o principal deles, é a discriminação racial.



Mergulhamos no subúrbio do Rio, onde percebemos a constante submissão das mulheres, uma diferença de gêneros bem forte e outros valores e costumes. 

Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes públicos o deixam. (...) o subúrbio é o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá; e todos os dias, bem cedo, lá descem à procura de seus amigos fiéis que os amparem, que lhes deem alguma coisa, para o sustento seu e dos filhos.



Tudo está indo monotonamente bem, até que somos apresentados a figura de Cassi, um garoto que encanta moças com seu violão e as suas modinhas. É um rapaz julgado por corromper as garotas e romper casamentos. Seu próprio pai o expulsou de casa, mas, pela interferência da mãe, ele mora no porão e não tem permissão pra frequentar os aposentos superiores. Afinal, já causou muito desgosto a família e as suas irmãs que sofrem pra conseguir um companheiro devido à fama do irmão.

As modinhas falam muito de amor, algumas delas são lúbricas até; e ela, aos poucos, foi organizando uma teoria do amor, com os desencantes do pai e de seus amigos. O amor tudo pode, para ele não há obstáculos de raça, de fortuna, de condição; ele vence, com ou sem pretor, zomba  da Igreja e da Fortuna, e o estado amoroso é a maior delicia da nossa existência, que se deve procurar goza-lo e sofre-lo, seja como for. O martírio até dá-lhe mais requinte...

No decorrer, Cassi é apresentado a Clara, e ela acaba fantasiando um amor puro e inocente. Acreditando nas juras de amor e na promessa de um futuro casamento. Tudo muito previsível, não é?

Cassi percebe do desgosto do padrinho da menina por ele, e resolve encarar Clara como sua última conquista antes de fugir do estado devido à sua fama e possíveis novas complicações com a polícia.

Vemos em Clara a falta de conhecimento das crueldades verdades do mundo, em um trecho cita como é a sua visão das coisas:

E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por destroços cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor. Na sua cabeça, não entrava que a nossa vida tem muito de sério, de responsabilidade, qualquer que seja a nossa condição e o nosso sexo. Cada um de nós, por mais humilde que seja, tem que meditar, duramente a sua vida(...).


Tudo isso é consequência do afastamento da mãe que nutre uma estranha relação com a filha. É super protetora mas nunca cumpriu o verdadeiro papel de uma mãe: ensinar e transmitir experiências para a sua filha. Vemos uma relação de possessividade, talvez até um amor na forma de medo de perdê-la para o mundo. A mãe sabe da "diferença racial" da filha e a priva de várias coisas, mas a menina não entende o motivo da diferença, afinal "todo mundo vai".



É um livro que eu não me arrependo de ter lido, gostei da história e os personagens foram bem delimitados, apesar de diferentes (e meio irritantes) do nosso comum. 
Meu comentário negativo vai pro desenrolar do enredo, acaba dando muitas voltas... Todas as vezes que aparece um novo personagem, Voilà, embarcamos na sua história inteira. Isso tornou a leitura um pouco arrastada, apesar de fazer com que nós entendêssemos melhor as atitudes e jeitos dos personagens.

Narrado em terceira pessoa com narrador onisciente. Pertence ao pré-modernismo, foi escrito por Lima Barreto e é um livro póstumo, escrito em 1922 e publicado em 1948.

No fim, Clara é mais uma das vitimas de Cassi, ele foge deixando-a grávida e acreditando no futuro casamento e amor eterno. No finalmente, Clara "acorda para a realidade", percebe que é inferior aos outros da sociedade e assume a desigualdade. 



Outro ponto que ressalto são as "vitimas de Cassi", todas inferiores de alguma forma: de condições financeiras, posição na sociedade, racialmente ou até todas juntas. 


Pois tu não sabes que a poesia pra mim é a minha dor e é a minha alegria, é a minha própria vida? Pois tu não sabes que tenho sofrido tudo, dores, humilhações, vexames, para atingir o meu ideal? Pois tu não sabes que abandonei todas as honrarias da vida, (...) unicamente pra não desviar dos meus propósitos artísticos?


Entretanto, elevou-me aos meus propósitos, perante a minha consciência, porque cumpri o meu dever, executei a minha missão: fui poeta! Para isto, fiz todo o sacrifício. A arte só ama a quem a ama inteiramente, só e unicamente; e eu precisava amá-la, porque ela representava, não só a minha Redenção, mas toda a dos meus irmãos, na mesma dor. Louco?! 

Como podemos perceber, temos uma forte presença de aspirantes e reais poetas no livro. Uma coisa que eu achei bem interessante foi que as farmácias funcionavam como uma espécie de "point" de pessoas mais cultas/elitizadas. Era nas drogarias que trocavam e debatiam ideias.

De quais clássicos vocês gostam??
XOXO

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