Resenha: Boneco de Pano (✮✮✮✮)


 Olá, leitores!

Título: Boneco de Pano
Autor: Daniel Cole
Editora: Arqueiro
Páginas: 336
Classificação: (★)


Boneco de Pano é, sem dúvidas, uma obra promissora do autor recém-lançado no mercado editorial, Daniel Cole. Existe uma poderosa mitologia por trás das obras policiais britânicas, consideradas, de modo geral, como de altíssima qualidade. Autores como Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Gilbert Keith Chesterton são apenas alguns exemplos a citar, e o grande questionamento da mídia, com relação ao livro que intitula essa resenha, é: será que Daniel Cole será capaz de adentrar o hall da fama dos autores britânicos? Seu título, Boneco de Pano, apresenta logo no início um assassinato bizarro: um corpo à la Frankenstein, composto pelas partes de outros seis corpos mutilados, é descoberto pela polícia, repousando como uma marionete logo em frente ao apartamento do protagonista da narrativa, o detetive William Fawkes (também conhecido como Wolf). Pouco depois da descoberta do monstruoso cadáver, o assassino lança um desafio à polícia: uma lista com o nome de suas próximas seis vítimas, cada uma com data de morte marcada, é enviada para a ex-mulher de William, sendo a última vítima... ele próprio. Logo, a trama gira em torno da corrida contra o tempo de Wolf e seus companheiros de Departamento para salvar as futuras e declaradas vítimas, enquanto precisam identificar as vítimas que compuseram o cadáver híbrido já encontrado e tentam ao mesmo tempo identificar o assassino. Não é uma trama simplória, mas será ela capaz de dar a Cole o título de mais novo autor “cult” da Inglaterra? Difícil dizer.


A leitura do livro é bastante fluida. O autor não se utiliza de muitos floreios de linguagem e opta por descrever cenários e cenas com um detalhamento sucinto, mas funcional. Percebe-se também uma diferença digna de nota entre a estrutura deste título e de outros títulos do gênero: enquanto nos outros a investigação é conduzida sumariamente por um único detetive (eventualmente acompanhado por um assistente), aqui a investigação se desenrola em diferentes níveis, com a participação constante de outros personagens, além de Wolf. Fica evidente desde o início da leitura o dinamismo que isso traz à narrativa. É notória também a presença de um humor negro sutil e sem muitos filtros, ao longo das cenas. Algo tipicamente inglês por si só. O uso desse humor, contudo, não destoa do tom da trama, pelo contrário: condiz totalmente com a atmosfera ligeiramente mórbida, hostil e irônica da história.

“- [...] E pode ir se preparando: depois que vocês dois entrarem naquela Sala de Interrogatórios, não têm hora para saírem de lá.- Nem mesmo uma estimativa?- Vão precisar esperar até que tenhamos absoluta certeza de que o prefeito não está correndo nenhum tipo de risco.- Fique tranquilo, levo um balde para você – disse o arrogante detetive Saunders, achando muita graça na própria piada.- Na realidade eu estava mais preocupado com o almoço – afirmou Wolf. ”

As jogadas que o autor usa para desenvolver o mistério ao longo da leitura são bastante inteligentes. Cole consegue, na medida do possível, guardar a solução do caso para o final da trama, muito embora algum leitor mais empenhado e atento possa vir a desconfiar do possível desfecho. As personagens também são razoavelmente bem desenvolvidas. Contudo, existe uma certa limitação nesse quesito, tendo em vista, por exemplo, a linguagem totalmente em terceira pessoa adotada para servir à narrativa. Não vamos muito a fundo nos pensamentos e motivações das personagens. Ainda assim, o autor consegue contornar esse empecilho com alguma desenvoltura. As personagens também são suficientemente carismáticas para que esse detalhe acabe passando batido. Cada ser que compõe a trama é bastante único, e facilmente diferenciado dos demais. Suas tramas paralelas também servem como aperitivo e fio condutor do mistério, direta ou indiretamente.

“[...] Ao passar por baixo do cordão de isolamento, olhou de relance para a estátua da deusa da Justiça que observava a tudo do alto do prédio, depois levantou o capuz do casaco e se jogou no mar de guarda-chuvas pretos, atropelado por uns e atropelando outros, indiferente à irritação de todos.Nenhuma daquelas pessoas fazia ideia do monstro que passava por elas: um lobo em pele de cordeiro.”
O problema principal acaba sendo o final. O desfecho e sua explicação acabam ficando um pouco inconsistentes ao olhar do leitor. O antagonista é construído com extrema astúcia do autor ao longo do livro, cometendo crimes e mais crimes de forma genial e ardilosa. Entretanto, a forma como seu desenvolvimento é conduzido na parte final da trama deixa a desejar. O conflito derradeiro acaba soando como uma solução um pouco forçada e conveniente demais. A impressão que se passa é que a editora obrigou o autor a cortar páginas da edição final do livro e ele precisou encurtar o fechamento do mesmo.


A despeito dos eventuais deslizes cometidos por Cole, entretanto, é inegável que a trama é realmente cativante e prende o leitor em pelo menos 80% do tempo. Concebido originalmente como um protótipo de seriado de TV, o enredo é bem pensado e planejado, e mesmo que deixe a desejar em determinados pontos, não parece deixar pontas soltas, apesar dos rumores (apenas rumores e nada mais) de uma possível continuidade da saga de Wolf em possíveis livros futuros. O que também não seria nenhuma surpresa: vindo da Inglaterra, uma nova saga de um detetive não passa do cumprimento de uma tradição. E ainda que o livro não tenha obtido, a princípio, o êxito máximo a que sua execução se propunha, continuações certamente seriam muito bem-vindas, por todo o potencial que Boneco de Pano apresenta e aproveita bem na maior parte do tempo!

Por: Isaac Duarte 

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